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Treino & Avaliação

Protocolos de dobras cutâneas: qual usar em cada caso

Publicado em 11 min de leituraEquipe Treinei

Cada protocolo de dobras foi validado em uma população específica. Veja quais pontos cada um mede, quando é indicado e por que trocar de protocolo invalida a comparação.

Neste artigo(8 seções)

A pergunta que aparece na formação e continua aparecendo dez anos depois é sempre a mesma: qual protocolo de dobras cutâneas é o melhor. A resposta é que não existe um melhor em abstrato. Existe o protocolo validado para o público que está na sua frente, executado com técnica consistente, e repetido do mesmo jeito na próxima avaliação.

Vale lembrar o que a técnica realmente faz antes de comparar as opções. A dobra cutânea mede a espessura de uma prega de pele e tecido subcutâneo em pontos anatômicos definidos, e esse conjunto de medidas alimenta uma equação de regressão. O que sai da equação, porém, depende do protocolo.

De um jeito ou de outro, o resultado é uma estimativa derivada de uma medida indireta. Isso não a torna inútil, torna-a uma ferramenta de acompanhamento. O valor está na variação do mesmo indivíduo ao longo do tempo, não no número isolado nem na comparação com a pessoa do lado — e é essa variação que segura o aluno no terceiro ciclo.

O que define a escolha do protocolo

Toda equação de dobras foi desenvolvida a partir de uma amostra concreta, com sexo, faixa etária, etnia e nível de atividade definidos, e comparada contra um método de referência da época. Aplicar a equação fora dessa população é onde o erro cresce.

  • Sexo. A distribuição de gordura subcutânea difere, e por isso quase todo protocolo tem uma equação por sexo, muitas vezes com conjuntos de dobras diferentes.
  • Faixa etária. Equações de adultos não servem para crianças e adolescentes, porque a relação entre gordura subcutânea e gordura total muda durante o crescimento.
  • População de origem. Alguns protocolos foram desenvolvidos em amostras norte-americanas ou europeias; outros, em amostras brasileiras.
  • Nível de treinamento. Amostras de sedentários e de atletas produzem equações diferentes, e o erro aparece justamente nos extremos.
  • Número de dobras. Mais pontos costumam representar melhor a distribuição, mas exigem mais tempo e mais consistência de execução.
Os cinco protocolos lado a lado
ProtocoloDobrasPopulação de origemIndicação típica
Jackson e Pollock (3)Homens: peitoral, abdominal, coxa. Mulheres: tríceps, suprailíaca, coxaAdultos norte-americanosRotina de academia, quando o tempo é curto
Jackson e Pollock (7)Peitoral, axilar média, tríceps, subescapular, abdominal, suprailíaca, coxaAdultos norte-americanosAcompanhamento longo, série histórica mais estável
Faulkner (4)Tríceps, subescapular, suprailíaca, abdominal — equação única para ambos os sexosNadadoresTriagem rápida em público jovem e ativo
Guedes (3)Homens: tríceps, suprailíaca, abdominal. Mulheres: coxa, suprailíaca, subescapularAdultos brasileirosAdulto brasileiro em rotina, com a agilidade de três pontos
Durnin e Womersley (4)Bíceps, tríceps, subescapular, suprailíaca — sem tronco baixo nem coxaAmostra britânica, faixa etária amplaFaixa etária ampla; quando o conforto do avaliado pesa
Slaughter e Lohman (2)Tríceps e panturrilha medial, no conjunto mais usadoCrianças e adolescentesA única adequada abaixo da idade adulta
Os cinco protocolos lado a lado

Jackson e Pollock: três e sete dobras

É o conjunto mais difundido no Brasil, publicado por Jackson e Pollock para homens e por Jackson, Pollock e Ward para mulheres, e desenvolvido em amostras de adultos norte-americanos.

Na versão de três dobras, o conjunto muda conforme o sexo. Para homens são medidas as dobras peitoral, abdominal e coxa. Para mulheres, tríceps, suprailíaca e coxa. É a opção mais rápida do grupo e a mais usada na rotina de academia, justamente porque cabe no tempo de uma sessão.

Na versão de sete dobras, o mesmo conjunto vale para ambos os sexos, com equações distintas: peitoral, axilar média, tríceps, subescapular, abdominal, suprailíaca e coxa. Representa melhor a distribuição do tecido, e é a escolha razoável quando o aluno vai ser acompanhado por meses e você quer a série histórica mais estável possível.

Faulkner: quatro dobras

O protocolo de Faulkner usa quatro dobras — tríceps, subescapular, suprailíaca e abdominal — com a mesma equação para homens e mulheres, o que explica boa parte da sua popularidade: é simples de aplicar e de memorizar.

Vale saber a origem antes de adotá-lo por padrão. A equação foi derivada em amostra de nadadores, e é frequentemente apontada na literatura como pouco adequada para populações distantes desse perfil, com tendência a subestimar em pessoas com mais gordura corporal.

Indicação típica: triagem rápida e acompanhamento de população jovem e ativa, com a limitação declarada para o avaliado. Não é a melhor escolha para acompanhar um aluno sedentário com sobrepeso ao longo de um programa de emagrecimento.

Guedes e Petroski: equações brasileiras

Duas referências desenvolvidas com amostras brasileiras, o que é um argumento relevante quando o seu público é justamente esse.

O protocolo de Guedes trabalha com três dobras e conjuntos diferentes por sexo: para homens, tríceps, suprailíaca e abdominal; para mulheres, coxa, suprailíaca e subescapular. Mantém a agilidade do protocolo de três pontos, com a vantagem de ter sido desenvolvido em população brasileira adulta.

As equações de Petroski, também desenvolvidas em amostra brasileira adulta, existem em versões com diferentes números de dobras, e os conjuntos variam por sexo e por versão, incluindo pontos que os protocolos norte-americanos costumam deixar de fora, como a panturrilha medial. Se você optar por elas, confirme na fonte original qual versão está usando e registre isso na ficha do aluno, porque a versão faz parte da identidade do dado.

Durnin e Womersley: quatro dobras de membro e tronco

Protocolo clássico desenvolvido em amostra britânica, com ampla faixa etária, que utiliza quatro dobras: bíceps, tríceps, subescapular e suprailíaca. É bastante usado em contexto clínico e de pesquisa, e tem a característica prática de não exigir dobras de tronco baixo nem de coxa.

Essa característica importa mais do que parece. Para uma parte dos alunos, a medida de coxa e a de abdômen são as mais desconfortáveis da avaliação, e para pessoas idosas ou com mobilidade reduzida elas também são as mais difíceis de padronizar. Um protocolo que dispensa esses pontos pode ser a diferença entre avaliar e não avaliar.

Indicação típica: adultos de faixa etária ampla, situações em que o conforto do avaliado pesa na decisão e contextos em que se busca compatibilidade com literatura clínica.

Slaughter e Lohman: crianças e adolescentes

Equações de adulto não devem ser aplicadas em crianças e adolescentes. A relação entre gordura subcutânea e gordura corporal total muda ao longo da maturação, e usar uma equação de adulto nessa faixa produz um número que parece resultado, mas não é.

As equações de Slaughter e colaboradores foram desenvolvidas para essa população e trabalham com dois pontos, sendo o conjunto de tríceps e panturrilha medial o mais utilizado. Além de adequadas à faixa etária, são menos invasivas, o que conta bastante quando o avaliado é uma criança.

A técnica pesa mais do que a equação

Discutir qual protocolo é mais preciso enquanto se mede de qualquer jeito é inverter a ordem do problema. A maior fonte de erro em dobras cutâneas é a execução, não a escolha da equação.

  1. Padronize o lado do corpo e mantenha o mesmo em todas as reavaliações. A convenção mais comum na literatura brasileira é o lado direito.
  2. Localize o ponto anatômico por referência óssea e marque antes de pinçar. Ponto encontrado no olho muda de avaliação para avaliação.
  3. Destaque a prega com os dedos, aplique o compasso a cerca de um centímetro do ponto de pinça e leia poucos segundos depois, de forma consistente.
  4. Faça pelo menos duas medidas de cada ponto, em rodízio entre os pontos e não em sequência no mesmo local. Se a diferença for grande, meça uma terceira vez e use o valor do meio.
  5. Use um compasso calibrado e sempre o mesmo equipamento. Trocar de compasso tem o mesmo efeito de trocar de protocolo.
  6. Padronize as condições: mesmo horário aproximado, pele seca, sem treino imediatamente antes e sem creme na região.

Sempre que possível, mantenha o mesmo avaliador ao longo do acompanhamento. A diferença entre dois profissionais medindo a mesma pessoa costuma ser maior do que a mudança real que você está tentando detectar em um mês.

Como escolher, na prática

Reduzindo a decisão ao que importa no dia a dia:

Quem está na sua frente, e o que isso indica
Quem está na sua frenteProtocolo indicado
Adulto brasileiro em acompanhamento de rotinaGuedes, ou Jackson e Pollock de três dobras
Adulto que você vai acompanhar por vários ciclosJackson e Pollock de sete dobras
Faixa etária ampla, ou quem não tolera bem tronco baixo e coxaDurnin e Womersley
Criança ou adolescenteSlaughter — nunca uma equação de adulto
Público jovem e ativo, em triagem rápidaFaulkner, com a ressalva dita
Quem está na sua frente, e o que isso indica

Escolhido o protocolo, o resto é disciplina: mesmo protocolo, mesmo compasso, mesmo avaliador, mesmas condições, tudo registrado. E na hora de mostrar ao aluno, apresente a tendência ao longo dos ciclos em vez de um número solto, acompanhada das outras medidas que você coletou. Um percentual isolado tende a virar obsessão; uma curva, somada a perímetros, carga e desempenho, vira informação.

Por fim, lembre que a avaliação existe para orientar a conduta. Se o resultado não muda nada no programa nem na conversa com o aluno, ele não estava fazendo falta, e o tempo gasto medindo teria rendido mais em qualquer outra parte do acompanhamento.

Perguntas frequentes

Qual protocolo de dobras é o mais preciso?
A pergunta não tem resposta única, porque a precisão depende de o avaliado pertencer à população em que a equação foi desenvolvida. Um protocolo adequado ao público, executado com técnica consistente, entrega acompanhamento mais confiável do que um protocolo com mais pontos aplicado fora da sua população de origem.
Posso comparar o resultado de dois protocolos diferentes?
Não. Cada equação parte de um conjunto próprio de dobras e de uma amostra própria, e nem todas chegam ao resultado pelo mesmo caminho: umas estimam a densidade corporal antes de converter, outras estimam o percentual de gordura direto. Os valores não são intercambiáveis. Ao trocar de protocolo, registre a data da troca e trate os dados anteriores como uma série encerrada.
De quanto em quanto tempo devo reavaliar as dobras?
O intervalo precisa ser maior que a variação normal da medida, ou você acaba lendo ruído como resultado. Na prática, reavaliar ao fim de cada ciclo de treino costuma fazer mais sentido do que medir mensalmente, e o intervalo deve estar combinado com o aluno desde o início.
Bioimpedância substitui as dobras cutâneas?
São métodos diferentes, com fontes de erro diferentes: a bioimpedância é sensível a hidratação, horário e condições do exame, enquanto as dobras são sensíveis à técnica do avaliador. Nenhum dos dois substitui o outro, e misturar os dois na mesma série histórica cria o mesmo problema de trocar de protocolo.
Preciso medir dobras em todo aluno?
Não. A avaliação deve responder a uma pergunta que muda a conduta ou a comunicação com o aluno. Em muitos casos, perímetros, registro fotográfico padronizado, desempenho e frequência dão a informação necessária com menos desconforto, especialmente em pessoas com relação difícil com o próprio corpo.