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Personal trainer anota em uma prancheta de papel ao lado de uma aluna sentada

Gestão

Como sair das planilhas de Excel e digitalizar seus treinos

Publicado em 7 min de leituraEquipe Treinei

Sua planilha não é o problema, é o limite. Onde ela quebra, o que você deixa de saber por causa dela e como migrar sem virar a operação de cabeça para baixo.

Neste artigo(5 seções)

Antes de falar mal da planilha, é justo reconhecer o óbvio: ela funciona. Personal trainer que montou um modelo bom no Excel tem uma ferramenta gratuita, que abre sem internet, que ele domina completamente e que faz exatamente o que ele quer, do jeito que ele quer. Nenhum aplicativo do mercado entrega essas quatro coisas juntas.

É por isso que sair dela é difícil. Não é apego a hábito antigo, é que a planilha realmente resolve o problema para o qual foi feita. O problema é que ela resolve só esse.

A planilha guarda o que você planejou. Ela não guarda o que aconteceu. E é a distância entre essas duas coisas que define se o seu aluno progride ou some.

Onde a planilha quebra

O ponto de ruptura raramente é dramático. É um acúmulo de pequenos atritos que você deixou de notar por já ter se acostumado com eles.

Você entrega o treino e perde o rastro

Você manda o arquivo ou o PDF e a informação para de circular. Se o aluno treinou, com que carga, se pulou a terça-feira três semanas seguidas, se aquele exercício doeu, você só descobre se ele contar. Você está prescrevendo o próximo ciclo com base em suposição.

Versão é uma bagunça silenciosa

Treino_Joao_v2_FINAL_agora_vai.xlsx é piada porque é verdade. O aluno guardou a versão de março, você ajustou em abril e mandou por outro canal, e agora vocês dois olham para planilhas diferentes com a mesma confiança. Quando isso acontece, ninguém percebe na hora.

O celular do aluno odeia o seu arquivo

O treino vai ser aberto na academia, com uma mão, com o telefone suado e o fone tocando. Planilha em tela pequena exige rolagem lateral, aperta coluna e some com a linha. O que você vê como organização, ele vê como obstáculo entre a série e a próxima.

A execução fica na sua cabeça

Uma célula escrita "supino 3x10" não diz nada sobre pegada, cadência ou amplitude. Você resolve isso explicando pessoalmente, o que funciona no presencial e desmorona no online. É a diferença entre um treino que a pessoa executa e um treino que ela tenta adivinhar.

Escala mal e some junto com o notebook

Com cinco alunos, atualizar cinco arquivos é chato. Com trinta, é meio expediente por semana. E se o arquivo está num computador só, sem cópia automática, uma pane leva embora meses de histórico de gente que confiou em você.

O que você deixa de saber

A perda maior não está no tempo gasto, está na informação que nunca chega até você. Com a planilha, essas perguntas ficam sem resposta:

  • Quem treinou nesta semana e quem não abriu o treino uma vez sequer.
  • Quais exercícios são sistematicamente pulados, que costuma ser o melhor indicador de que algo está errado na prescrição.
  • Como a carga de um exercício evoluiu ao longo de três meses, sem você precisar reconstruir isso de memória.
  • Quem está prestes a desistir. Aluno some por semanas antes de avisar, e quase sempre há sinal antes.
  • Quanto tempo você gasta por aluno por mês, que é a informação que sustenta a sua decisão de preço.

Nenhuma delas exige inteligência artificial nem relatório sofisticado. Exige apenas que o registro do treino aconteça onde o treino é executado, e não em um arquivo que só você abre.

Quando ainda vale ficar na planilha

Nem todo mundo precisa migrar agora, e forçar a mudança no momento errado só gera retrabalho. A conta vira mais ou menos assim:

Quando a planilha ainda serve e quando ela passa a atrapalhar
SituaçãoFique na planilhaHora de migrar
Formato do atendimentoTodos presenciais, você ao ladoQualquer aluno à distância
Número de alunosPoucos, que você acompanha de cabeçaMais do que você lembra sem consultar
Uso do arquivoAnotação suaMaterial que o aluno abre na academia
MontagemCada treino é diferenteVocê repete a mesma montagem toda semana
Quando a planilha ainda serve e quando ela passa a atrapalhar

Um roteiro de quatro semanas

O erro clássico é migrar tudo em um fim de semana e voltar atrás na segunda, quando dois alunos reclamam e um treino se perde. Fazer em ondas custa quatro semanas e evita isso.

  1. Semana 1 — organize antes de mover. Liste seus alunos ativos, o treino que cada um está fazendo e a data da última revisão. Você provavelmente vai descobrir gente com treino vencido há mais tempo do que imaginava. Corrija isso agora, ainda na planilha; migrar bagunça só produz bagunça em outro lugar.
  2. Semana 1 — padronize os nomes dos exercícios. Se na sua planilha existe "supino reto", "supino barra" e "supino reto barra" para a mesma coisa, escolha um nome e use sempre. É o passo mais chato e o que mais economiza tempo depois, em qualquer ferramenta.
  3. Semana 2 — monte três ou quatro modelos base. A maioria dos treinos que você escreve é variação de poucos esqueletos. Monte esses esqueletos uma vez e passe a partir deles para o individual. É onde está o ganho real de tempo, não no aplicativo em si.
  4. Semana 2 — migre dois alunos. Escolha os dois mais tranquilos, avise que você está testando um jeito novo e peça retorno honesto. Dois é o número certo: dá para consertar tudo se der errado.
  5. Semana 3 — migre os alunos novos. Quem entra agora não tem hábito antigo para desfazer e vai achar normal. Nesse ponto você já corrigiu o que quebrou com os dois primeiros.
  6. Semana 3 — mantenha a planilha como consulta, não como origem. Ela vira histórico, e o treino ativo passa a existir em um lugar só. Duas fontes ao mesmo tempo é o que faz migração fracassar.
  7. Semana 4 — migre o restante em lote e desligue a planilha para treino ativo. Guarde uma cópia com backup por um tempo, mas pare de editar.

O que você vai sentir falta, e o que fazer

Vale antecipar as três reclamações previsíveis, porque elas aparecem e é melhor você já saber a resposta.

  • A liberdade de formatar tudo. Em uma ferramenta você aceita a estrutura dela. Em troca, ganha consistência entre alunos e para de refazer layout.
  • A montagem manual em que você tinha controle total. Duplicar um treino existente e ajustar costuma resolver, e é mais rápido, mas o primeiro mês parece estranho.
  • A tela grande. Tudo que você fazia com o notebook aberto passa a ter uma etapa a menos, e é comum sentir que perdeu visão geral antes de descobrir onde ela foi parar.

Nada disso é motivo para não migrar. É motivo para migrar em quatro semanas em vez de em um domingo, com dois alunos de teste e uma cópia da planilha guardada.

O objetivo, no fim, não é usar um aplicativo. É parar de prescrever no escuro. Quando o registro do treino acontece onde o treino é feito, você deixa de perguntar "como foi a semana?" e passa a começar a conversa já sabendo — e essa é a diferença que o seu aluno percebe, mesmo sem saber que você trocou de ferramenta.